quarta-feira, 20 de outubro de 2010

CONSELHO DE CLASSE E PARECER DAS TURMAS: Uma estratégia para acompanhamento e intervenção no Ensino Fundamental

Alexandro Muhlstedt

INTRODUÇÃO

O presente texto reúne uma breve análise dos pareceres escritos pelos professores monitores de turma sobre as turmas do ensino fundamental do Colégio Estadual Professor Francisco Zardo, de Curitiba, no ano de 2010. Trata-se de um documento entregue no dia do Conselho de Classe no qual o professor descreve o aproveitamento e o rendimento geral da turma, pontuando questões sobre a aprendizagem e os principais problemas observados no cotidiano da turma.
A partir desses pareceres, no momento do Conselho, medidas são adotadas para sanar as dificuldades. É uma estratégia que auxilia na implementação de ações tendo em vista avançar no processo de ensino aprendizagem.

1. Professor Monitor de Turma

No Colégio Zardo há uma atividade na qual cada turma tem professores monitores. Esse professo monitor é uma figura que assume a turma em forma de apadrinhamento, na qual, além de desenvolver o trabalho com os conteúdos da própria disciplina, também assume um papel de conselheiro e orientador. Desse modo, estabelece um vínculo mais profundo, interagindo melhor e conduzindo o trabalho pedagógico mais próximo. Isso contribui para que conheça melhor os alunos, assuma responsabilidades que envolvem a afetividade com determinado grupo, na tentativa de construir uma identidade da turma, evitando esgotamento emocional.
Todas as turmas possuem esse professor monitor, que, no momento do Conselho de Classe, apresenta e entrega por escrito para a Equipe Pedagógica, o parecer descritivo sobre a turma. Essa estratégia foi adotada com intuito de reduzir a carga de trabalho referente ao professor ter de escrever parecer a respeito de todas as suas turmas. Com isso, o professor escreve com mais profundidade apenas da turma na qual é monitor, salientando questões fundamentais com mais propriedade.
Além dessas atividades – aconselhar, dialogar e fazer relatórios da turma – o professor monitor também é o articulador da turma para participar da Gincana Cultural, evento que movimenta toda a escola no 1º semestre.

2. O Parecer Descritivo

O parecer descritivo do Conselho de Classe é uma atividade do Pré conselho que compete ao professor monitor realizar. É um documento que deve ser feito com muita atenção e seriedade, sendo fidedigno aos fatos e informações nele solicitados. A partir desse parecer, que é uma espécie de relato da turma, medidas pedagógicas são adotadas. Afinal, além dos avanços, também é solicitada a descrição dos problemas observados na turma. Assim, a partir deles são discutidas quais seriam as ações pedagógicas mais adequadas para saná-las.
O professor monitor faz o parecer, mas não assume sozinho o papel de articular as decisões tomadas. A ele juntam-se a Equipe Pedagógica e os professores das demais disciplinas num trabalho coletivo, com intuito de reduzir, sanar ou, mesmo, eliminar os problemas apontados.
É um trabalho que exige articulação coerente, por isso mesmo, o parecer deve ser feito com atenção e, sobretudo, não perder de vista a perspectiva de mudança do panorama apresentado.
Dias antes do Conselho de Classe a Equipe Pedagógica entrega a Ficha para ser preenchida pelo professor monitor. Geralmente este dialoga com os outros professores na Hora atividade procurando conferir suas opiniões e pontos de vista sobre a turma, colocando no documento elementos que sintetizem, de certa forma, uma visão mais geral da sua turma.

3. O Ensino Fundamental em 2010

No ano de 2010 o ensino fundamental da escola era constituído por 12 turmas, sendo três turmas de cada série (5ª a 8ª série), com aproximadamente 430 alunos.
De acordo com a legislação vidente, o Ensino Fundamental deve garantir a formação básica do cidadão e o desenvolvimento integral do aluno, mediante:

I - O desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo;
II - Compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;
III - O desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimento e habilidades e a formação de atitudes e valores;
IV - O fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social.

Estas prerrogativas legais impulsionam ações que levam em consideração a etapa de vida dos alunos, com idade entre 10 e 15 anos. Por isso, acompanhar o desenvolvimento por meio dos pareceres é uma das estratégias para aplicar as exigências legais e éticas.
No Colégio Zardo, de acordo com a orientação da mantenedora, as disciplinas que compõem a matriz curricular do Ensino Fundamental são: Artes, Ciências, Educação Física, Ensino Religioso, Geografia, História, Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna (Inglês) e Matemática. E são os professores dessas disciplinas que participam do Conselho de Classe e apresentam os pareceres sobre as turmas.

4. O Parecer Descritivo do Ensino Fundamental em 2010

A seguir, será apresentado um quadro com os pareceres dos professores monitores a respeito das turmas do Ensino Fundamental entregues no decorrer do 1º, 2º e 3º bimestre do ano letivo de 2010. No 4º bimestre não é entregue nenhum parecer da turma, visto ser o último bimestre não havendo possibilidade de intervenção pós conselho. Afinal, no 4º Bimestre, quando ocorre o Conselho de Classe Final, é apresentado o resultado final (aprovado ou reprovado) e o professor deve fazer um parecer individual para cada aluno que eventualmente tenha reprovado em sua disciplina.


TURMA
PARECER
1º BIMESTRE
PARECER
2º BIMESTRE
PARECER
3º BIMESTRE
5ªA
Aproveitamento muito bom, turma questionadora, alunos críticos e participativos.
Há alguns focos de conversas paralelas.
Aproveitamento bom, são alunos participativos.
Há alunos que não realizam as atividades para casa.
Aproveitamento bom, os alunos são participativos.
Alunos que não realizam as atividades para casa.
5ªB
Rendimento satisfatório, são criativos, prestam atenção à explicação.
Não sabem trabalhar em equipe, necessitando canalizar o trabalho para produção individual.
Alunos repetentes e fora da faixa etária que não respeitam as regras (entram e saem da sala, gazeiam aula e se atrasam) o que acaba sendo um péssimo exemplo para a turma.

O rendimento é satisfatório quando o professor consegue “acalmar” os 45 alunos em sala.
Precisa sempre chamar a atenção para a explicação, e voltar a explorar duas ou três vezes a mesma coisa. Depois passar para a etapa de explicar individualmente para que os mais “aptos” assimilem, pois num universo de 40-45 é difícil atingir todos.
Turma muito “cheia” quase não cabe em sala de aula. As conversas que se estendem em “cascata” são difíceis de controlar e o professor se desgasta falando alto ou simplesmente esperando a turma “calar” para poder falar.
É uma turma excelente em rendimento, percebi que gostam da matéria e fazem as atividades pedidas.
Devido a idade e a imaturidade de alguns, precisam de atenção e de paciência.
É preciso explicar bem, para que façam as atividades.
A turma no geral vai bem, somente 03 alunos num universo de 42 não foram bem na avaliação.
A turma é agitada, conversa demais e sempre precisa chamar a atenção para que o volume de vozes diminua para que o professor possa explicar. Na primeira aula é necessário buscar carteiras de outras salas, por isso a turma demora em se acomodar.
Alguns alunos chegam atrasados quase sempre na primeira aula; quando tem de buscar carteira são os atrasados que acabam se atrasando mais ainda. Depois que alguns alunos que estavam fora da idade para a 5ª série saíram da turma, melhorou muito.
5ªC
Baixo rendimento, o aproveitamento é regular.
Muito indisciplinados, impertinentes, não fazem atividades e trabalhos, não cumprem os prazos.
Há muita conversa paralela, brincadeiras bobas, violência, agressão e palavrões.

O rendimento é parcial, grupos separados tiveram um bom aproveitamento.
Há muita indisciplina e falta de comprometimento.
Devido a grande indisciplina da turma, o trabalho e o processo de aprendizagem é deficiente. Eles tem grande capacidade, porém, a falta de atenção e interesse.
Ainda há muita indisciplina, falta de interesse e falta de atenção
6ªA
Boa turma, mas com um grupo de alunos que atrapalham muito.
São agitados, muita conversa paralela e indisciplina de modo geral.

Com relação ao bimestre anterior em questão de conteúdo, os alunos apropriaram-se com mais intensidade. No entanto, há alguns alunos com baixo rendimento.
Pequenos grupos de alunos que não realizam as atividades propostas; esquecem do livro, do caderno, etc...
O aproveitamento, no meu ponto de vista, é pouco, pois eles falam muito, levantam do lugar e não prestam atenção.
Os alunos não fazem anotações sobre o trabalho a realizar.
Há muita conversa e em voz alta.
6ªB
Turma fraca, com baixo rendimento.
Há muita preguiça, brincadeiras de mau gosto.
Muitas alunas sem educação, desrespeitando a todos.
Presença de grosserias, brigas, ironias, agressões, palavrões e desrespeito.
Turma que conversa demais, respondem mal e não escutam o professor.
Não prestam atenção e não avançam no conteúdo.
O rendimento é ruim, desinteresse quase geral.
Muita dificuldade na escrita. Não realizam as atividades e os trabalhos.
Fazem tudo com displicência, sem capricho.
É uma turma fraca, sem interesse e desmotivados.
Falta de interesse, são indisciplinados e há conversas fora de hora.
6ªC
Aproveitamento regular, há falta de empenho, conversas excessivas, não se concentram.
Muitas brincadeiras de mau gosto, uso de celular e fone de ouvido.

O aproveitamento de regular para fraco, o rendimento referente a tarefas, participação, responsabilidade quanto ao estudo em geral é péssimo.
A maioria dos alunos não tem interesse em aprender e não se concentram.
Não prestam atenção e nem se dedicam em leituras para resolverem atividades.
Há muitas brincadeiras, conversas, provocações e às vezes até agressões. Preocupações com a vida do próximo (fofocas, as quais causam confusões).
O desempenho é fraco, pois nos alunos apresentam uma defasagem de conteúdos.
Dificuldade de concentração, muita conversa, falta de interesse em aprender, muita brincadeira e defasagem de conteúdos por parte de alguns alunos.
7ªA
É uma turma de grande potencial, pois tem um grupo comprometido.
Alguns alunos são indisciplinados, atrapalham os demais e saem da sala sem autorização.
Muitas conversas paralelas, brincadeiras de mau gosto.

Os alunos pouco se apropriaram dos conteúdos devido a indisciplina, porém existem alguns alunos que participam e procuram cumprir com a obrigação.
Há conversas paralelas, indisciplina (por parte de alguns), tem falta de livro na disciplina de ciências o que dificulta o trabalho.
Afrontamentos com professor
Não param sentados no lugar.

A turma tem bastante anseio por aprendizagem, pois diziam que não sabiam nada, porém apresentam dificuldades de aprendizado e de atenção.
Me surpreendeu o fato da maioria dos alunos querer fazer a prova de recuperação e ter ido bem na prova.
Fazem trabalho em duplas sem problemas, alguns trabalhos foram excelentes, comecei a trabalhar com resumos e eles se aplicaram.
A turma é muito agitada e indisciplinada. Tem dificuldade de interpretar textos do quadro, ao mesmo tempo que não consegue se ater às explicações.
A quantidade de alunos faz com que poucos alunos consigam desvirtuar a atenção de toda a turma, e o professor não consegue chamar a atenção de um aluno específico de cada vez.
7ªB
Aproveitamento regular, conversas paralelas, dispersão, indisciplina de alguns alunos.
Conversas em tom alto de modo excessivo.
São agitados e fracos no conteúdo.
Alguns alunos agressivos, mal educados, que não entregam trabalhos, faltosos e com baixo rendimento.

A turma demonstra interesse nas atividades propostas. A partir do 2º bimestre os alunos começaram a questionar mais e a realizar as atividades e trabalhos solicitados pelo professor e, como consequência, houve melhoria nas notas.
Embora tenham melhorado significativamente, há alguns alunos que demonstram desinteresse em estudar, conversam bastante, usam boné, escutam música no celular e picham nas carteiras e no quadro.
Há falta de respeito com os colegas, chegam atrasados. Muita conversa. Troca de palavrões. Não tiram o material da mala e não fazem as atividades.
A maioria faz as atividades mas o rendimento é regular por fazerem as atividades correndo e terem pressa de ir embora, esteticamente precisam melhorar.
A turma é desmotivada, com pouco interesse, falta capricho, organização.

O rendimento geral e aproveitamento é baixo devido a indisciplina.
As questões de aprendizado foram mínimas, uma vez que a desobediência, falta de compostura e de educação tomam conta da sala.
Não há disciplina. Parece que nunca ouviram falar em respeito, pois se batem, se maltratam, se desrespeitam, utilizam-se de um vocabulário chulo não apenas entre eles, mas também com os professores, em suma, definitivamente não há educação e muito menos limites.
O aproveitamento da turma melhorou significativamente, precisa crescer muito, são alunos que não se concentram, pela indisciplina de alguns, os quais apresentaram um rendimento melhor. Neste bimestre falta organização, capricho, interesse e responsabilidade, rendimento regular.
A falta de organização com material, capricho, muita conversa e mais concentração para um desempenho melhor.
Muita dificuldade de aprendizagem, baixo rendimento.
Muita conversa, muita brincadeira. Dificuldade de concentração, defasagem acentuada de conteúdos, não fazem trabalhos e atividades. Respondem agressivamente ao serem questionados.
7ªC
Turma ruim, com pouco aproveitamento.
Não realizam tarefas e trabalhos que valem nota.
Há muita bagunça na sala, muita dispersão, piadas de mau gosto e pouca disposição para o estudo.
Em algumas aulas são aplicados e participativos, fazendo e entregando as atividades.

Durante o 2º bimestre, o rendimento da turma caiu muito. Houve, por parte dos alunos, uma falta de interesse em desenvolver as atividades exigidas pelos professores, como consequência, houve uma queda nas notas dos mesmos.
Falta de interesse em realizar as atividades das aulas. Aumento da indisciplina em sala de aula. Teima (aumento) em usar maquiagem e aparelhos celulares consequentemente cansaço do professor em brigar todas as aulas, pelos mesmos motivos.
Rendimento baixo. Alguns alunos não querem nada com nada. Alguns alunos só querem conversar e ver o tempo passar. Não se preocupam com o restante da turma. A exceção é a turma da parede e alguns alunos da frente.
Alunos afrontando professor com palavras de baixo calão.
Usam celular em sala, há desrespeito.

8ªA
Turma regular, conversas paralelas, alguns alunos com muitas dificuldades, saídas da sala sem autorização.
No geral fazem e entregam os trabalhos.

A turma em geral é muito boa, a maioria faz os trabalhos, fazem as lições, mas sempre tem algumas exceções, ainda bem que são poucas.
Há muita conversa.
A turma em maioria é boa, tirando problemas de comportamentos, muitas conversas paralelas, os alunos se dispersam da aprendizagem.
Se os alunos tivessem mais interesse em aprender, a turma seria perfeita. Pois eles são capazes de aprendizagem.
Conversas paralelas, desinteresse, indisciplina.
8ªB
Turma ruim, com baixo aproveitamento.
Há alunos que fazem gracinhas em excesso, são dissimulados, provocativos e agitados.

No geral a turma é participativa com bom domínio de conteúdo; salvo alguns alunos que não demonstram domínio de conteúdo e interesse.
A presença de alunos que incomodam o tempo inteiro e não executam as atividades solicitadas.
Há alunos que influenciam de forma negativa os demais.
No geral a turma é participativa com bom domínio de conteúdo; salvo alguns alunos que não demonstram interesse.
Os alunos já citados no conselho anterior, continuam não realizando as atividades solicitadas.
Há alunos que continuam apresentando um comportamento inadequado à sala de aula, sendo necessário sempre chamar a sua atenção. Apesar disso não atrapalham o andamento do trabalho na sala de aula.
8ªC
Problemas sérios de comportamento, conversas paralelas, uso de maquiagem, celular e fone de ouvido.
São imaturos, não param quietos, não fazem tarefas e lições.
Alunos unidos para não respeitar as regras da escola.

Alguns alunos melhoraram, consegue fazer as atividades.
Tem muita conversa, falta de interesse, falta de respeito, indisciplina e bagunça de alguns.

A turma em geral teve um bom rendimento nesse bimestre, uma vez que tiveram um ótimo comportamento, demonstraram um maior interesse em aprender, questionando os conteúdos e realizando as atividades propostas.
Contudo, há alguns alunos que não realizam as atividades, não entregam os trabalhos e atrapalham a aula. Consequência: notas ruins.
Uso excessivo do aparelho celular para escutar músicas; Uso de maquiagem; Atraso de alguns alunos na primeira aula.
Aproveitamento é fraco, turma não é participativa, falta de concentração.
Rendimento é de ruim a péssimo.
Falta de concentração, Falta de interesse e Falta de bagagem (conteúdo básico)
Gostam muito de atividades lúdicas, mostrando a imaturidade para estudar. Só gostam de brincar.
Muita conversa de alguns alunos.
(Quadro com os Pareceres das Turmas 2010)

Nota-se, pelo relato dos professores, que praticamente todas as turmas apresentavam problemas referente à disciplina em sala de aula e, de acordo com eles, isso explicaria os baixos rendimentos. Fica claro nos relatos que baixas notas ou o mau desempenho estão diretamente ligados ao mau comportamento ou não cumprimento das atividades solicitadas aos alunos.
Os problemas citados demonstram também algo já mencionado em inúmeros estudos que é a inadequação das formas de ensino ao tipo de aluno que se tem atualmente. A escola, em todo o seu conjunto de tradição de socializar o conhecimento historicamente construído, por meio das metodologias docentes, de fato não cumprem tal função tendo em vista que poucas turmas avançaram nesse quesito de acordo com os relatos. É interessante notar que em turmas onde o rendimento ou desempenho teria melhorado o motivo teria sido a melhoria no comportamento, o que poderia ser entendido como a obediência dos alunos em ouvir o professor, cumprir as regras e fazer o que ele pede. Ora, sabe-se que fora da escola não é isso que acontece no cotidiano dessas crianças e adolescentes, tão acostumados a “fazerem o que querem” tendo em vista a ausência dos pais que estão fora de casa, praticamente o tempo todo, trabalhando.
Fazer essa compreensão não é realizar o jogo de culpabilização do professor pelos problemas da sala de aula, mas refletir que os processos de ensino que ocorrem no interior da escola realmente não são condizentes com as realidades vividas pelos estudantes fora dela. Também não quer dizer que a escola tenha que abrir mão de sua tradição e fazer da escola um espaço de sala de estar, de ponto de encontro ou passeio. Na verdade, deve-se considerar essa ambivalência para se tentar realizar diálogos com intenção de fazer aproximações entre os aspectos do ensino conectados às necessidades de aprendizagens das crianças e adolescentes.
Nessa questão, pode-se pontuar as ações empreendidas pelos professores e Equipe Pedagógica no sentido de orientar os alunos, chamando a atenção para os erros e descumprimento das regras, bem como as suas famílias.
Ao longo dos três bimestres, os alunos foram chamados, orientados, repreendidos, corrigidos e a eles solicitado mudança de postura, tendo em vista a necessidade de melhoria em suas notas e em seu desempenho geral. Infelizmente nem todos ouviram, ou atenderam. Porém, algo foi feito, pois do contrário, certamente o cenário seria muito pior.
Tendo em vista os anos anteriores, em que havia muita depredação do espaço físico, uso de drogas, brigas e agressões físicas, pichações entre outros, em 2010 foi possível perceber que esses problemas se reduziram, sendo alguns deles completamente eliminados do cotidiano. Isso tudo em função de trabalhos de conscientização e parceria entre escola e família. Os problemas pontuados ao longo dos bimestres foram sendo entendidos à luz de questões que tem a ver também com a faixa etária, com a insegurança comum nessa idade e a tentativas de autoafirmação dos alunos e para isso, enfrentando a autoridade, desafiando as regras. Talvez isso explique atos de indisciplina e displicência.
É importante destacar o papel dos professores monitores que foram atenciosos com suas turmas, buscando estratégias para superação dos problemas, recorrendo à Equipe Pedagógica quando necessário, na tentativa de melhorar o ambiente da sala de aula. Nem sempre foi possível resolver tudo na hora, porém, sempre houve o interesse e a responsabilidade de tomar providências nos casos apresentados.
Ressalta-se também o papel dos pais que, via telefone, sempre compareceram quando convocados, assumindo compromisso em resolver as situações que envolviam indisciplina ou falta de responsabilidade de seu filho para com os estudos.
Por fim, a estratégia de construir pareceres da turma bimestralmente tem se mostrado uma estratégia eficiente por auxiliar no registro e na tomada de decisões.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

O PEDAGOGO E O CURRÍCULO: Oficina no Itinerante para reflexão e análise da intervenção possível

Alexandro Muhlstedt

Não deve bastar interpretar o mundo de diferentes maneiras;
o que importa é transformá-lo.
(Marx; Engels, 1987. p. 14)

INTRODUÇÃO

No ano de 2010 a Secretaria de Estado da Educação do Paraná proporcionou Formação Continuada na qual os Professores da Rede poderiam atuar como docentes, desenvolvendo oficinas. O evento foi denominado Itinerante por tratar de atividade descentralizada, na qual era possível desenvolver atividades em formato de Oficinas.. As oficinas deveriam apresentar práticas pedagógicas consistentes, fundamentadas nas diretrizes curriculares e contribuir para que os professores ampliassem as possibilidades metodológicas em sala de aula. Aos professores, diretores, pedagogos e funcionários foi dada a oportunidade de partilhar suas experiências e discutir temas da diversidade, inclusão, uso das tecnologias na educação, desafios contemporâneos e demais temas referentes a sua área de atuação.
Para participar, os profissionais deveriam inscrever sua oficina junto ao Núcleo Regional de Educação (NRE) ao qual pertencessem que, após analisar a proposta, encaminhava para o Departamento de Educação Básica (DEB) o qual fazia a avaliação e seleção.
Basicamente, as oficinas inscritas poderiam se constituir em práticas pedagógicas ou em resultado de estudo conceitual sobre os tópicos sugeridos, avaliados a partir dos critérios de educação para toda à escola pública: Concepção, Coerência do desenvolvimento do conteúdo, Organização do conteúdo da oficina atendendo aos elementos orientados e disponível no sistema.
Assim, motivado pela possibilidade de socializar uma prática pedagógica na área do Currículo, bem como refletir sobre o papel, função e desafios no cotidiano do trabalho do Pedagogo, decidi inscrever uma Oficina. Denominei a oficina de “O pedagogo e o currículo: a intervenção necessária”, visando discutir e refletir sobre essa temática.


1. FUNDAMENTOS

Etimologicamente o termo currículo vem do latim curriculum que significa “pista de corrida, caminho ou trajetória”. Em se tratando de educação, expressa, portanto, um projeto de escola e, consequentemente, de sociedade e de mundo.
A concepção de currículo na escola pública, por sua vez, deve expressar a intenção desta trajetória, que não é espontânea, pelo contrário, é intencional e deve revelar as necessidades históricas daqueles que dependem da escola pública como via de acesso ao conhecimento. Currículo, portanto, se situa nas disputas de poder que ocorrem entre aqueles que vem na educação o espaço para seus projetos e expectativas, bem como disputas de poder no interior das próprias políticas públicas.
Moreira e Silva (1995) salientam que:

O currículo não é um elemento inocente e neutro de transmissão desinteressada do conhecimento social. O currículo está implicado em relações de poder, o currículo transmite visões sociais particulares e interessadas, o currículo produz identidades individuais e sociais particulares. O currículo não é um elemento transcendente e atemporal – ele tem uma história, vinculada a formas específicas e contingentes de organização da sociedade e da educação (p. 8).

Assim, partindo desse pressuposto, é possível afirmar que a escola pode ser considerada, também, uma instituição produtora de políticas curriculares. E mais, que ela possa ser vista como um local permanente de decisões. E nessa perspectiva, o pedagogo, constrói sua prática, devendo questionar a realidade e refletir sobre o vivido no cotidiano.
Sobre o profissional pedagogo, a percepção que se tem é que ele tem se tornado elemento-chave na articulação entre o sistema de ensino oficial e a escola, o que remete a compreender que em certos momentos, o seu papel é requisitado como mediador na condução e efetivação de políticas educacionais, sejam quais forem suas concepções e intenções. Deste modo, o pedagogo torna-se um profissional a serviço do Estado, e não necessariamente a serviço da comunidade.
Diante desse quadro, o pedagogo tem como desafio constituir sua identidade profissional como intelectual orgânico das massas e como cientista da educação, ou seja, um profissional comprometido com a maioria da população dos trabalhadores, com a promoção do acesso à educação. Para tal investiga, propõe estratégias e alternativas para a melhoria do processo ensino e aprendizagem.
Nesse sentido, é fundamental o reconhecimento do Currículo escolar, as disciplinas e o conjunto de conteúdos historicamente construído, mas, sobretudo, compreender o Currículo que compõe o conjunto de conhecimentos da prática pedagógica do Pedagogo.

2. TÓPICOS

De acordo com a organização dos elementos de inscrição, incluí minha proposta de Oficina no tópico: O papel do pedagogo na mediação do currículo (disciplinar) e das Diretrizes Curriculares Estaduais.

3. JUSTIFICATIVA

O pedagogo é, hoje, na escola pública, um profissional indispensável com papel claramente definido e, por isso mesmo, assume a função de mediador entre as concepções teóricas de currículo e a organização do cotidiano da escola. Dito isso, a presente Oficina justifica-se pela necessidade de discussão e aprofundamento do papel do pedagogo ante a implementação de currículo com opção pelas disciplinas.
Justifica-se também pela relevância em investigar e definir com maior propriedade o papel do pedagogo na articulação do currículo, a prática do professor e a reflexão dessa mesma prática à luz dos fundamentos curriculares.

4. PROBLEMATIZAÇÃO

Atualmente, com a implantação das Diretrizes Curriculares Estaduais e a elaboração e reelaboração das Propostas Pedagógicas Curriculares das escolas, torna-se um desafio grandioso transpor a teoria (curricular) à prática pedagógica no dia a dia do professor e vice-versa. Os pedagogos e professores se deparam com inúmeras situações na rotina escolar e, por conseguinte, estão a todo momento sendo desafiados a dar conta dessa rotina e dessas situações, além daquelas inerentes à função de cada um. É necessário, pois, redefinir e reorganizar determinadas práticas, a fim de contribuir para a implementação de um currículo que leve em consideração as especificidades de cada realidade e a necessária consolidação do Projeto Político Pedagógico.
Discutir com os professores, ao mesmo tempo avaliando e reorganizando a prática pedagógica, nem sempre é uma tarefa fácil aos pedagogos, visto que isso demanda tempo e todo um arsenal de argumentos para convencimento e “sedução pedagógica”.
Há, por fim, que levar em conta que são entraves para a implementação real uma certa resistência por parte dos professores em realizar o Plano de Trabalho Docente de forma atualizada e coerente com as novas propostas curriculares.

5. METODOLOGIA

Para o desenvolvimento da Oficina, escolhi uma metodologia que dá prioridade a diferentes formas de análise da problemática e diferentes abordagens e propostas de soluções:

a. Problematização do assunto
Utilizar a técnica da “Árvore dos Problemas” para o levantamento dos problemas enfrentados no dia a dia pelos participantes. Pergunta chave: “Quais são as dificuldades enfrentadas pelos pedagogos na rotina escolar”?
O docente distribui papeletas aos participantes solicitando que cada um escreva problemas do cotidiano (um problema em cada papeleta), que são afixadas em um painel para serem visualizadas por todos.
Agrupam-se os problemas iguais, sendo que os participantes determinam o problema central, as causas e as consequências desse problema.
Os problemas apresentados são discutidos, sendo ou não confirmados pelo grupo, lembrando que, a partir do momento que as ideias são colocadas no painel, elas são consideradas de propriedade do grupo.
O grupo constrói, então a "árvore" (diagrama), obedecendo a relação causa-efeito entre os problemas. Se for o caso, novos problemas são acrescentados.
Esta técnica possibilita o estabelecimento da relação de causa e efeito.
b. Painel Integrado
Sistematização das papeletas escritas, selecionando os problemas que se referem ao professor e sua prática.
Em seguida, os participantes escreveram relatos sobre esses problemas.
Após, houve a socialização dos relatos, discutindo o papel do pedagogo.
c. Trabalho em grupo
- Em grupos, os participantes escrevem sobre conceito de currículo e proposta pedagógica curricular.
- Em seguida, inicia a construção da “Árvore das Soluções” (o inverso do que foi escrito na Árvore dos Problemas).
- Executa-se a elaboração dos objetivos e de funções práticas do pedagogo na implementação de currículo, refletindo sobre a necessidade da constituição de práticas do pedagogo em consonância com a necessária compreensão, pelo professor, da importância do currículo, proposta pedagógica e plano de trabalho docente.
d. Leitura e a análise do texto
- Estudo do texto sobre o currículo e papel do pedagogo, encerrando a discussão de acordo com as orientações gerais feitas pela SEED (presente no texto escolhido).



6. MATERIAIS

Para o desenvolvimento adequado da atividade, é necessário providenciar alguns materiais com antecedência: 8m de Papel Bonina, 1 resma de Papel sulfite, Tesoura, Fita adesiva, um pincel atômico para cada participante, cópias do texto “O papel do pedagogo na gestão: possibilidades de mediação do currículo”.

7. RELATO DA OFICINA DESENVOLVIDA NO SETOR PORTÃO - CURITIBA


Nos dias 16 e 17 de junho de 2010 desenvolvi a Oficina junto aos pedagogos que atuam nas escolas do Setor Portão, Curitiba. Foram aproximadamente 120 participantes, sendo 40 em cada Oficina.
A Oficina foi desenvolvida três vezes, com grupos distintos, sendo uma Oficina em cada turno, com duração de 4 horas cada.
A seguir, apresento as “Árvores” construídas pelos grupos, seguida de algumas observações feitas posteriormente, refletindo a produção.
OFICINA 01 – 16 DE JUNHO - MANHÃ
ÁRVORE DOS PROBLEMAS
ÁRVORE DAS SOLUÇÕES
REFERENTE AO PEDAGOGO
Pedagogo substituindo o professor que falta
Falta de hora atividade para estudos e organização do trabalho
Incompreensão da função de pedagogo
Falta de colaboração e apoio
Número de pedagogos insuficiente

REFERENTE AO PROFESSOR
Falta de Professor
Falta do Professor à aula
Falta de ética, compromisso e comprometimento
Mau desempenho em sala de aula
Dificuldade em preencher o livro de registro
Resistência à mudança
Falta de domínio de classe
REFERENTE AO ALUNO
Gazetas de aula
Uso de drogas
Indisciplina
Não há atendimento ao aluno com dificuldade
Alunos em aula vaga
Desinteresse pelas aulas

REFERENTE À ESTRUTURA
Falta inspetor de pátio
Falta de valores
Violência
Uso inadequado dos meios legais
Vícios”, “tem que ser assim”
Comunicação truncada e relacionamentos conflitivos
Falta de profissionais e atendimentos especializados
REFERENTE AO PEDAGOGO
Definição de funções
Hora atividade ao pedagogo para estudos e organização do trabalho pedagógico
Compreensão do trabalho e função do pedagogo
Colaboração de funcionários
Demanda adequada de funcionários

REFERENTE AO PROFESSOR
Substituição rápida
Não falta à aula de forma negligente
Trabalho realizado com ética, compromisso e comprometimento
Domínio de classe
Informação clara e precisa
Interação, conhecimento e respeito
Domínio de classe

REFERENTE AO ALUNO
Aluno em sala de aula
Prevenção e combate ao uso de drogas
Disciplina e limites
Atendimento adequado ao aluno com dificuldades
Interesse do aluno

REFERENTE À ESTRUTURA
Presença de Inspetor no pátio
Resgate do valor da educação
Respeito, ética e paz
Utilização dos meios legais de forma precisa
Flexibilidade
Entrosamento, relação interpessoal e atitudes de respeito
Estrutura e demanda adequadas



Os participantes dessa Oficina manifestaram inúmeros questionamentos a respeito da função primordial do pedagogo. A problemática girou em torno das ações de rotina que impedem uma ação coerente e de acorda com a função definida em lei.
O problema mais evidenciado foi a falta do professor à aula e a falta de professor em diferentes disciplinas. Nota-se a demora na substituição e por isso tendo o pedagogo que realizar o atendimento aos alunos.
A indisciplina, portanto, tende a aumentar, de acordo com grupo, por causa dos inúmeros momentos que ficam ociosos no pátio. Sendo que não há inspetor que cuida e fiscaliza esse espaço.
Em função dessa problemática, acaba que muitas vezes o trabalho do pedagogo é incompreendido pelos professores e demais profissionais sendo que o mesmo é solicitado a dar conta de sua função precípua e também das cotidianidades que nem sempre são decisões e ações pedagógicas, mas sim, atividades de cunho administrativo, comportamental e burocrático.
Ante a este contexto, evidencia-se a necessidade de uma estruturação e organização do trabalho pedagógico, fortalecendo a reelaboração de Projeto Político Pedagógico coerente com a realidade e as necessidades da escola, bem como implementar a concretização de Planos de Ação do Pedagogo conectado à função definida em lei e de acordo com as necessidades de cada unidade escolar.
Fazer pedagogia é realizar atividades que envolvem pessoas e grupos sociais com intencionalidades educativas diferentes. É uma ação que implica comprometimento moral e ético, assim como capacidades para articular a vida da escola com o mundo social global. Assim, todo profissional da educação deve se enxergar, antes de tudo, como um educador, mesmo que especialista em alguma área específica do conhecimento.
Assim, o pedagogo, com função articuladora dos processos de ensino e aprendizagem é peça fundamental para estabelecer a tão sonhada qualidade educacional.
Para isso, defende-se e sugere-se a concretização de Plano de Ação e organização clara, coerente e concisa (e simples, sim) de ações na rotina escolar.

OFICINA 02 – 16 DE JUNHO - TARDE


ÁRVORE DOS PROBLEMAS
ÁRVORE DAS SOLUÇÕES
REFERENTE AOS PEDAGOGOS
Ações “apaga incêndio”
Falta de pedagogos
Estudo com professores não é realizado
Tempo inexistente para estudos
Trabalhos e tarefas fora da função do pedagogo
Excesso de trabalho
Pedagogos sem linha telefônica
Invasão de espaços”
Falta de unidade de ação

REFERENTE AOS PROFESSORES
Falta de professor
Troca de professores
Falta professor substituto
Problemas na formação inicial dos professores
Resistência
Descomprometimento
Falta de dedicação, responsabilidade e atualização
Acomodação

REFERENTE AO ALUNO E SUA FAMÍLIA
Dificuldade na participação dos pais na escola
Indisciplina em sala de aula
Falta de respeito
Evasão escolar

REFERENTE À ESTRUTURA
Falta de autonomia
Burocracia
Falta de profissionais e inspetores de pátio
REFERENTE AOS PEDAGOGOS
Elaboração do Plano de ação
Número de pedagogos conforme a demanda da escola
Espaço para estudo com os professores
Clareza na função do pedagogo no Plano de ação
Trabalhos compatíveis com a função
Linha telefônica para acesso e uso exclusivo
Respeito pelo espaço / atuação
Unidade nas / de ações

REFERENTE AOS PROFESSORES
Substituição rápida dos professores em licença, afastados ou em tratamento de saúde
Condições de trabalho
Melhorar a formação inicial – Universidades
Flexibilidade
Compromisso e comprometimento
Responsabilidade, ética e estudos
Atualização


REFERENTE AO ALUNO E SUA FAMÍLIA
Participação dos pais
Disciplina e limites
Respeito
Permanência na escola

REFERENTE À ESTRUTURA
Autonomia
Desburocratização
Profissionais e inspetores de pátio


As pedagogas participantes dessa oficina apresentaram questões cruciais na rotina do pedagogo escolar. A falta de professores, o abandono de turmas e a falta do professor à aula tem sido motivo de completa desarticulação do trabalho do pedagogo.
Percebe-se que o pedagogo acaba realizando, então, inúmeras outras tarefas, deixando de lado o papel preponderante de articulador. Além disso, enfrenta a resistência, a incompreensão de seu trabalho, a falta de companheirismo, bem como a corrida contra o tempo para dar conta de tantas atribuições.
Exige-se do pedagogo muito mais do que ele é capaz de dar conta. Além das atribuições legais e morais, a ele cabe o cumprimento de um imenso conjunto de tarefas; muitas vezes, pelo simples de não estar em sala de aula acaba assumindo tais papeis. Ainda assim, é tido como aquele que “não faz nada” na escola.
Pode-se inferir que o final do expediente do pedagogo é o momento de lembrar que o seu fazer esgotou-se e tornou-se “fumaça” por agir nas consequências e não nas causas dos problemas de rotina.
A tão necessária reflexão e articulação teoria prática mais parece um sonho, um ideal, do que a atribuição principal do pedagogo.
O pedagogo assiste a descaracterização e secundarização de sua função. Acaba por fazer de tudo (profissional multitarefa): correr atrás de aluno que não quer assistir aulas, que briga com o colega, com o professor, com o funcionário; do aluno que está doente, que se acidenta, que chega atrasado, que vem sem uniforme, que não faz tarefas; do professor que não domina sua turma, que não explica a matéria, acarretando, com isso, problemas de disciplina, os quais são repassados para o pedagogo resolver e, quando este toma alguma decisão contrária ao que o professor esperava, ainda o trata de modo hostil.
Além disso, deve “cobrir” e até substituir professores ausentes; do diretor que não compreende o trabalho do pedagogo, delegando a ele o papel de disciplinador, além de outros papeis, como, por exemplo, colocar em prática projetos que chegam à escola, sem uma devida análise, avaliação e discussão sobre a viabilidade dos mesmos para os alunos.
Necessita-se, então, compreender e respeitar o pedagogo como o profissional que articula e organiza o trabalho pedagógico na e da escola, garantindo a coerência e uma unidade de concepção entre as diversas áreas do conhecimento respeitando as suas especificidades.
A identidade e autoridade do pedagogo como profissional vai sendo outorgada quando possui a responsabilidade de discutir, refletir, buscar soluções coletivas para as práticas pedagógicas. Isso implica conhecer com profundidade a realidade em que a escola está inserida para poder explicitar essa realidade nas contradições, nas necessidades do grupo e agir, de forma organizada e planejada, junto ao conjunto de profissionais da comunidade escolar.
A atuação do pedagogo poderá ser encaminhada no anúncio de uma nova proposta de ação que visualize e combata as estratégias de alienação. Desafiar as concepções conservadoras de educação exige que seja desvelada a ideologia contida e utilizada nos discursos “ da proposta de gestão democrática – originada nos movimentos dos trabalhadores da educação – para impor praticas autoritárias e desumanas, em prol da manutenção dos privilégios de uma minoria absoluta da população (...) detentora do capital (Silva Junior, 1997. p. 9).

OFICINA 03 – 17 DE JUNHO - MANHÃ


ÁRVORE DOS PROBLEMAS
ÁRVORE DAS SOLUÇÕES
REFERENTE AOS PEDAGOGOS
Desconhecimento da real função do pedagogo
Falta tempo para estudos
Resistência de professores ao encaminhamento dos pedagogos
Falta pedagogo na escola (quantidade insuficiente para atender a demanda)
Realização de outras funções, atividades e tarefas
Função indefinida

REFERENTE AO ALUNO E SUA FAMÍLIA
Falta de acompanhamento da vida escolar pela família
Indisciplina
Falta de limites
Agressividade
Alunos sem perspectivas
Carência emocional / afetiva
Atrasos
Não uso do uniforme
Descaso às normas

REFERENTE AOS PROFESSORES
Falta de comprometimento
Rotatividade
Falta de professores
Formação dos professores incoerente com a realidade
Comodismo
Falta dos professores às aulas
Professores despreparados

REFERENTE À MANTENEDORA
SEED não dá suporte às decisões da escola
Burocracia que impede prática
REFERENTE AOS PEDAGOGOS
Atuação na especificidade da função
Espaço para estudos em reuniões semanais
Parceria de pedagogos e professores
Número de pedagogos suficientes para atender a demanda
Realização de atividades e tarefas compatíveis com sua função mediadora e articuladora entre conhecimento, ensino e aprendizagem
Função clara e definida no Plano de ação

REFERENTE AO ALUNO E SUA FAMÍLIA
Família acompanhando a vida escolar e conhecendo a escola
Disciplina
Limites cobrados
Harmonia
Alunos com perspectivas de futuro
Alunos motivados
Cumprimento de horário
Uso do uniforme
Cumprimento das regras

REFERENTE AOS PROFESSORES
Compromisso, ética e seriedade
Fixação de padrão na escola
Substituição rápida
Formação continuada coerente com as necessidades dos professores e da escola
Comprometimento
Disponibilidade de professo substituto
Professores preparados

REFERENTE À MANTENEDORA
Suporte pela SEED nas decisões da escola
Desburocratização e facilidade nos acessos de melhoria


Os participantes dessa oficina apresentaram como principal problema, do qual decorrer os demais, embora não seja este a causa geral dos problemas escolares, a realização de tarefas que não são pedagógicas.
As observações apontadas pelos participantes ilustram os equívocos em relação às atribuições do Pedagogo, ocasionados pela história recente de sua pretensa profissionalidade.
Percebe-se claramente a angústias por causa do deslocamento do foco de seu trabalho, descaracterizando sua função e secundarizando o sentido do pedagógico.
Evidencia em suas colocações que o pedagogo é compreendido como burocrata, disciplinador de alunos, fiscalizador de professores e/ou profissional multitarefa.
Em função disso, decorrem problemas de origem docente, discente, relações humanas, stress, entre outros e a sensação de estar “fazendo, fazendo mas não chegando a lugar algum”..
Diante desse quadro, compreende-se que o pedagogo tem como desafio constituir sua identidade profissional como intelectual orgânico dos processos escolares e como cientista da educação, ou seja, um profissional comprometido com a maioria da população dos trabalhadores, com a promoção do acesso à educação. Para tal torna-se necessário investigar, propor estratégias e alternativas para a melhoria do processo ensino e aprendizagem.
Assim, a construção do Plano de Ação torna-se peça essencial na articulação dessas proposições e necessidades das escolas do setor, superando e minimizando os problemas e atingindo os objetivos que podem ser definido a partir das soluções elencadas.
De modo geral, o Plano de Ação constitui num conjunto de ações educativas planejadas e articuladas com o objetivo de definir o caminho a ser trilhado na rotina do pedagogo. Cabe, nesse plano, a definição no coletivo dos pedagogos, quais são as ações prioritárias e quais devem ser as ações de rotina que caracterizam a ação pedagógica.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao desenvolver a Oficina junto a três grupos de pedagogos, atingindo aproximadamente 120 profissionais, foi possível fazer levantamento de inúmeras questões presentes no trabalho cotidiano desses profissionais.
A conquista da profissionalidade destes, exigirá, inicialmente, uma tomada de consciência do próprio pedagogo diante da realidade. Essa tomada de consciência se dará, por um lado, através da sensibilidade, reflexão e ação em prol daqueles que hoje estão na escola publica e que dela mais necessitam para sua humanização. Isso demanda interesse em aprofundar-se nas questões da ciência da educação, nas questões didático-pedagógicas e nas questões da atualidade, para que possa fazer enfrentamentos necessários para a transformação da escola em um espaço, não de reprodução e manutenção do status quo, mas sim de oportunidades e possibilidades para todos a uma vida social e produtiva digna.
Como profissional da educação, que tem a função de coordenar, organizar, promover, articular, mediar o processo educativo e pedagógico, o pedagogo deve refletir sobre os problemas sociais e educacionais, procurando, na coletividade, possíveis encaminhamentos. Tudo isso é componente fundamental do Currículo que compões os saberes do pedagogo. Articular isso junto aos professores, faz emergir de modo mais profícuo as reflexões e tomada de decisões a respeito do Currículo escolar.
Discutir a respeito dessas questões como algo inerente a função do pedagogo não constitui tarefa fácil, pois surge o risco de cometer equívocos, pois é fundamental que o pedagogo e os demais profissionais envolvidos com e no processo ensino e aprendizagem, possam fazer a diferença quando sua formação for apuradamente crítica, pela assunção consciente e profissional da união indissociável entre a ação política e pedagógica, e entre a teoria e a prática.

9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GASPARIN, J. L. Uma didática para a Pedagogia Histórico-Crítica. Campinas: Contemporânea, 2002.
GIROUX, H. Teoria Crítica e Resistência em Educação. Petrópolis: Vozes, 1983.
LOPES,A. C.; MACEDO, E. Currículo: debates contemporâneos. São Paulo: Cortez, 2002.
MOREIRA, A . F. B. Currículos e Programas no Brasil. Campinas: Papirus, 1990.
______; SILVA, T. T. da. (Org.).Currículo, cultura e sociedade. São Paulo: Cortez, 1995.
______ (org). Currículo: pensar, sentir e diferir. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
PARO, V. H. Gestão Democrática da escola pública. 3 ed. São Paulo: Ática, 2005.
PRAIS, M. de L. M. Administração colegiada da escola pública. 3 ed. Campinas: Papirus, 1994.
SACRISTÁN, J. G.; GÓMEZ, A. I. P. O currículo: os conteúdos do ensino ou uma análise prática? Porto Alegre: Armed, 2000.
______. Compreender e Transformar o Ensino. Porto Alegre: Armed, 2000.
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO. Currículo Básico do Estado do Paraná. Paraná: 1990.
__________. Diretrizes Curriculares da educação Básica. Paraná: 2008.
SILVA JUNIOR, C. A. A organização do trabalho na escola pública: o pedagógico e o administrativo na ação supervisora. In RANGEL, M. & SILVA JUNIOR, C.A. (orgs.) Nove Olhares sobre a Supervisão. 7 ed. Papirus Editora: Coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico. Campinas:1997.
TAQUES, M. (et al). O papel do pedagogo na gestão: possibilidades de mediação do currículo. [s. d.]. Curitiba.
VEIGA, I. P. A. (org). Projeto Político- Pedagógico da escola: uma construção possível. Campinas: Papirus, 1995.